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Idade Média ou Idade das Trevas?

Trajes típicos da Idade Média

Trajes típicos da Idade Média

Para os estudiosos do século XVIII, a Idade Média estava envolvida em um obscurantismo religioso, econômico e social que prejudicou o desenvolvimento desse período. Segundo os filósofos iluministas e os pensadores renascentistas, contribuíram para essa escuridão o domínio exercido pela Igreja Católica no cotidiano das pessoas. Os clérigos se utilizavam da ingenuidade dos fieis para controlar todas as áreas da sociedade, o poder da igreja era maior que o das outras instituições, na hierarquia social o Papa estava no topo. Era ele, o líder supremo do clero quem ditava as regras econômicas, controlava o sistema político e manipulava os costumes e tradições, prevalecia o pensamento centrado na fé.

Para concretizar a construção de uma sociedade ideal desejada por Deus, os religiosos usavam os mais variados mecanismos como, por exemplo: a doutrinação através da imposição do medo, a venda de indulgências (compra do perdão divino), o julgamento dos hereges (era considerado assim todos os que iam contra o que era pregado e defendido pela igreja) no Tribunal da Santa Inquisição e as guerras de reconquista da terra santa, as Cruzadas. Para completar esse cenário de medo imposto pelos clérigos, à sociedade medieval também tinha um histórico de grandes epidemias como a peste negra, doença transmitida por pulgas de ratos infectadas que dizimou um terço da população europeia.

Como consequência das epidemias, a crise se tornou generalizada, devido ao alto índice de mortes ocorreu uma queda na produção agrícola, gerando instabilidade sócia econômica e elevando o número de mortes relacionadas à fome. Outro fator que na visão dos estudiosos manchou a história da Idade Média diz respeito ao ensino, a educação era restrita a poucos e ministrada pela igreja. Por essas e outras razões o período ficaria por vários séculos rotulado como Idade das Trevas.

O período medieval durou cerca de mil anos, seu marco inicial se da com a queda do Império Romano do Ocidente no século V e chega ao fim com a invasão do Império Romano do Oriente pelos turcos no século XV. A História Medieval é divida em Alta Idade Média (momento da formação dos grupos e relações sociais) e Baixa idade média (última fase medieval, marcada pelo surgimento de novas ideias e decadência do sistema feudal). Quando estudamos a história medieval devemos ter cuidado para distinguir o que realmente aconteceu com a fantasia criada pelo imaginário popular. Por ser um período cheio de misticismos, grandes clássicos da literatura, inclusive os contos de fada foram escritos ambientados na idade média, dessa forma muito do que se sabe dessa fase da história europeia não corresponde ao que aconteceu de fato.

Definir o período medieval como uma época restrita a guerras, crises e intolerância religiosa nos da uma proporção da visão preconceituosa e limitada com a qual os pesquisadores a analisaram. Entre o século XIV e o XV, houve uma valorização do racionalismo, os homens renascentistas passaram a criticar as teorias baseadas na fé e tentaram resgatar a cultura Greco romana que ficou esquecida durante a idade medieval.

A crise na igreja católica contribuiu para a difusão das ideologias renascentistas, os artistas, pensadores, escritores do renascimento se diziam mais modernos e tentavam desvalorizar o que foi produzido pelo homem medieval. A partir da segunda metade do século XX o termo Idade das Trevas começou a ser desmistificado pelos novos historiadores, estudos realizados comprovariam que esse foi sim um período de intenso crescimento cultural e desenvolvimento em diversas áreas, inclusive ocorreu uma grande expansão urbana. Muitas coisas negativas aconteceram, porém elas não devem anular as inovações medievais.

Se fizermos uma analise da História Medieval, iremos perceber uma infinidade de inovações que por sinal muitas ainda continuam fazendo parte dos nossos dias. O surgimento das Universidades merece destaque, no século XII elas começaram a se desenvolver, estavam ligadas diretamente a corte real ou a igreja, esses centros de ensino foram fundamentais para o amadurecimento do pensamento científico. Os primeiros cursos universitários foram os de Teologia, Direito e Medicina.

Outra contribuição do período está ligada aos campos, o desenvolvimento de novas tecnologias como os moinhos e a charrua aplicadas a agricultura propiciariam um aumento no cultivo e consequentemente uma melhoria nas condições de vida dos mais desvalidos. Se as pessoas passam a comer melhor, elas tem o tempo de vida prolongado, a população é ampliada e isso gera uma expansão urbana. O aumento na produção agrícola gera um excedente que passa a ser comercializado, o que vai dar um impulso na economia aumentando as relações comerciais.

O fim das invasões bárbaras e a decadência do sistema feudal proporcionariam mais paz e estabilidade para a população. O senhor feudal que antes oprimia o servo, agora tentaria lhe conceder um tratamento melhor, pois havia o medo de sua parte em perder a sua mão de obra.

A expansão comercial e populacional contribuiria para o surgimento de uma nova classe social, a burguesia. Este novo grupo buscaria fugir do domínio da igreja católica para aumentar o seu poder, o que começaria a desencadear um enfraquecimento do clero. O sistema econômico conhecido como feudalismo aos poucos daria lugar a um sistema econômico baseado na geração do lucro, essas novas relações comerciais e econômicas favoreceriam a criação de novas profissões. Aos poucos os centros urbanos se tornariam mais importantes que os campos.

Um episódio que merece destaque é o Renascimento Carolíngio, movimento de revitalização cultural marcado pelo florescimento das artes, literatura, música, arquitetura e consolidação de novas leis. Nesse período foram construídas belas igrejas e catedrais que tinham o seu interior decorado com pinturas e obras de arte de artistas reconhecidos até hoje. Os cantos gregorianos também seriam estimulados, músicas compostas no ambiente religioso ganhariam destaque fora dos domínios da igreja pela beleza em suas composições, seus versos se tornariam um patrimônio cultural da Europa e seriam reproduzidos pelo mundo inteiro.

A Idade Média foi um período de grandes descobertas. Não podemos ignorar mil anos de história e desenvolvimento cultural e cientifico. Aqueles que tentaram desmerecer a História Medieval demonstraram o uso de uma visão individualista e preconceituosa. A historiografia atual condena o uso do termo Idade das Trevas, por esse desqualificar tudo o que foi produzido pelos homens medievais.

Lorena Castro Alves
Graduada em História e Pedagogia