Mistério da natureza: abelhas que só existem na Chapada dos Veadeiros intrigam cientistas

Pesquisa revela a presença de abelhas únicas no Parque Nacional Chapada dos Veadeiros, ameaçadas por mudanças climáticas e atividades humanas.

No coração do Cerrado brasileiro, a Chapada dos Veadeiros revela um segredo da natureza que poucos conhecem: espécies de abelhas nativas que não existem em nenhum outro lugar do planeta.

Essa riqueza biológica, além de ser fascinante, está ameaçada pelas mudanças climáticas e pela ação humana, o que levou pesquisadores a se dedicarem a estudos aprofundados para compreender, preservar e alertar sobre os riscos que pairam sobre esse patrimônio natural.

Uma pesquisa conduzida pelo projeto Rede Biota Cerrado, com apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), está mapeando a biodiversidade de abelhas endêmicas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

Sob coordenação do professor Antônio Aguiar, do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB), o estudo visa identificar espécies exclusivas da região, monitorar populações e analisar como esses insetos respondem às alterações ambientais aceleradas.

Abelhas que só existem nas alturas da Chapada

Segundo o professor Aguiar, espécies como a Schwarziana chapadensis e a Caupolicana Gaullei habitam exclusivamente áreas de altitude da Chapada dos Veadeiros.

“A mudança climática provavelmente vai levar à extinção de algumas dessas espécies. É quase certo que isso vai acontecer”, alerta o pesquisador.

Precisamos monitorar essas populações para evitar que desapareçam antes mesmo de serem completamente estudadas, preservando os habitats naturais e as áreas protegidas”, completa.

Schwarziana chapadensis e Caupolicana gaullei, espécies que só existem na região da Chapada dos Veadeiros (Foto: Reprodução)

Pesquisa de campo, DNA e conservação genética

A iniciativa tem forte viés educacional e científico. Estudantes realizam coletas em campo, conservam amostras na coleção entomológica da UnB e extraem DNA para análise genética das abelhas.

O objetivo é entender como a biodiversidade do Cerrado responde às mudanças no clima e no uso da terra, contribuindo com estratégias de conservação ambiental e proteção das espécies polinizadoras.

As pesquisas são realizadas na Fazenda Volta da Serra, área de preservação conhecida por apoiar a ciência há mais de duas décadas.

O local recebe cientistas de universidades do Brasil e do exterior para desenvolverem teses de mestrado, doutorado e aulas práticas de campo.

Um patrimônio biológico de valor inestimável

Para Aguiar, a Chapada dos Veadeiros tem importância biológica global, que exige atenção e proteção urgente.

“Esses campos rupestres levaram milhões de anos para se formar e podem ser destruídos em poucas horas por ação humana. Não se restaura uma área natural em uma ou duas décadas, são necessários séculos”, afirma o pesquisador.

Essa preocupação é compartilhada por Lauro Jurgeaitis, presidente da Associação da Chapada dos Veadeiros, que também alerta para os impactos da expansão agropecuária e do uso de agrotóxicos.

“A lista do Ibama já aponta espécies como a abelha Uruçu em risco de extinção, e isso está diretamente ligado à perda de habitat e ao uso indiscriminado de químicos”, ressalta.

Apicultura sustentável: solução e oportunidade

Além de sua importância ecológica, a apicultura no Cerrado também surge como uma atividade estratégica para a conservação.

“Aqui na Fazenda Volta da Serra, por exemplo, já foram catalogadas cerca de 70 espécies de abelhas em uma área de apenas 2 mil hectares”, explica Lauro.

Ele também destaca o potencial produtivo da região.

“O mel do Cerrado tem características únicas, com floradas nativas como aroeira e cipoúva, que proporcionam sabores distintos e propriedades medicinais. Há estudos que mostram, inclusive, que o mel de aroeira ajuda no combate à bactéria Helicobacter pylori, causadora de gastrite e úlcera”, completa.

A Chapada dos Veadeiros, além de ser um dos destinos ecológicos mais exuberantes do Brasil, guarda uma biodiversidade que precisa ser valorizada, estudada e, acima de tudo, protegida.

O alerta é claro: sem políticas eficazes de conservação e pesquisa, espécies inteiras, e todo o equilíbrio do Cerrado, podem desaparecer diante dos nossos olhos.

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