Figuras de Linguagem

Entre as figuras de linguagem mais comuns estão: comparação, metáfora, catacrese, metonímia, personificação, antítese, hipérbole, eufemismo, ironia, gradação, onomatopeia e aliteração.

0

Você sabe o que são figuras de linguagem? Recursos de expressão muito usados na linguagem literária, as figuras de linguagem são empregadas para ampliar o significado de um texto literário ou ainda para substituir termos em uma frase. Elas podem ser utilizadas para fins estilísticos ou não. Quando uma palavra ou expressão é retirada de seu lugar habitual, isto é, quando deixa de significar aquilo que diz os dicionários, dizemos que ela foi empregada em seu sentido conotativo, também chamado de sentido figurado. As figuras de linguagem mais comuns são:

  • Comparação
  • Metáfora
  • Catacrese
  • Metonímia,
  • Personificação
  • Antítese
  • Hipérbole
  • Eufemismo
  • Ironia
  • Gradação
  • Onomatopeia
  • Aliteração

Quando conhecemos os aspectos principais relativos às figuras de linguagem compreendemos melhor os textos (literários, publicitários etc.). Além disso, nos tornamos mais sensíveis à beleza da linguagem e ao significado simbólico das palavras. Os recursos da linguagem figurada podem nos ajudar ainda a expressar de forma diferente, pessoal, muitas das coisas que pensamos e sentimos. Por isso elas são constantemente utilizadas por escritores, poetas e artistas em geral, por garantirem a um texto expressividade e subjetividade.

Principais figuras de linguagem

  • Comparação: A comparação consiste em estabelecer, entre dois seres ou fatos, uma relação de semelhança, atribuindo a um deles características presentes no outro. Veja os exemplos:

“Eu faço versos como quem chora
De desalento, de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto ”.
(Fragmento do poema “Desencanto”, de Manuel Bandeira)

“Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há pássaros”.
(Fernando Pessoa)

  • Metáfora: Emprego de uma palavra com sentido diferente do sentido usual, a partir de uma comparação subentendida entre dois elementos. Exemplos:

“Meu coração é um porta aviões
Perdido no mar esperando alguém pousar
Meu coração é um porto sem endereço certo
É um deserto em pleno mar”.

(Nau à deriva, Engenheiros do Hawaii)

“Há muito o meu coração está seco,
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas práticas
Entrou em mim, me diminuindo”.

  • Catacrese (Metáfora desgastada): Consiste em denominar algo (um objeto, uma ação etc.) usando impropriamente uma determinada palavra, por não haver outra mais adequada. Exemplos:

“asa da xícara”, “céu da boca”, “dente de alho”, “embarcar no avião”, “pé da página”.

As expressões acima caíram no gosto popular pela semelhança com formas existentes entre os seres. Muitas, ainda, por esquecimento ou distanciamento da origem, são usadas fora do seu sentido literal. Funciona como um “empréstimo”.

    • espalhar” significava, antigamente, separar palha; mas usamos este verbo para diversos fins: espalhar dinheiro, espalhar a brasa, espalhar o sal sobre a comida…
    • enterrar” significava, primitivamente, colocar na terra. Mas usamos também com o sentido de enterrar o dedo no bolo, por exemplo.
    • embarcar” tem seu significado primitivo como entrar no barco. Atualmente usamos embarcar no avião, no ônibus, enfim, em qualquer meio de transporte.
    •  “encaixar”, originalmente, colocar em caixas, hoje significa colocar algo em um espaço em que caiba perfeitamente.

Veja mais exemplos:

“batata da perna”, “coroa do abacaxi”, “maçã do rosto”, “braço da poltrona”, “fio de azeite”, “árvore genealógica”, “perna da mesa”, “cabeça de alfinete”, “pé da montanha”.

Também pode ser empregada na literatura, enriquecendo o texto:

“Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos; […].”
(Graciliano Ramos, Vidas Secas.)

  • Metonímia (sinédoque e antonomásia): Consiste na substituição de uma palavra por outra, quando entre ambas existe uma proximidade de sentidos que permite essa troca. Exemplos:

“Devolva o Neruda que você me tomou (o livro do Neruda, poeta chileno)
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde”.

(Trocando em miúdos, Chico Buarque)

Sinédoque e antonomásia são tipos de metonímia. A sinédoque é a parte pelo todo: “O rebanho tinha mil cabeças”. Cabeças, aqui, simboliza o todo, que é o gado. Ocorre antonomásia quando se transfere o valor semântico de um nome próprio para um nome comum que contenha uma característica que remeta ao nome próprio. Por exemplo: “O Bruxo do Cosme Velho é considerado o maior escritor da literatura brasileira” = Machado de Assis é considerado o maior escritor da literatura brasileira.

  • Personificação (prosopopeia): Figura de linguagem que consiste em atribuir a seres inanimados (sem vida) características de seres animados; ou em atribuir características humanas a seres irracionais. Exemplo:

Recordação

Agora, o cheiro áspero das flores leva-me os olhos por dentro de suas pétalas. Eram assim teus cabelos; tuas pestanas eram assim, finas e curvas. As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo, tinham a mesma exalação de água secreta, de talos molhados, de pólen, de sepulcro e de ressurreição.

E as borboletas sem voz dançavam assim veludosamente.

Restitui-te na minha memória, por dentro das flores! Deixa virem teus olhos, como besouros de ônix, tua boca de malmequer orvalhado, e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios, com suas estrelas e cruzes, e muitas coisas tão estranhamente escritas nas suas nervuras nítidas de folha, – e incompreensíveis, incompreensíveis.

(MEIRELES, Cecília. “Obra poética”. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1972, p. 154.)

No trecho em destaque, “E as borboletas sem voz dançavam assim veludosamente”, as borboletas recebem características e ações humanas: “sem voz” e “dançavam”.

  • Antítese: Consiste no uso de palavras (ou expressões) de significados opostos, com a intenção de realçar a força expressiva de cada uma delas. Veja os exemplos:

Balanço

A pobreza do eu
a opulência do mundo

A opulência do eu
a pobreza do mundo

A pobreza de tudo
a opulência de tudo

A incerteza de tudo
a certeza de nada.

(Carlos Drummond de Andrade)

O poeta

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.
Ele é o eterno errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri. […]

(Vinícius de Moraes)

  • Hipérbole: Consiste em um exagero intencional, com a finalidade de intensificar a expressividade e, assim, impressionar o ouvinte (ou leitor).

“Rios te correrão dos olhos, se chorares (…)” (Olavo Bilac) – aqui percebemos o exagero: a ideia de muito choro se transforma em rios que correm dos olhos;

“Queria querer gritar setecentas mil vezes/ Como são lindos, como são lindos os burgueses” (Caetano Veloso) – identificamos o engrandecimento da ideia: gritar setecentas mil vezes é praticamente inviável, mas o compositor quis dar a noção de exagero do ato;

“Estou morrendo de sono”- a sentença é utilizada constantemente no dia a dia e revela um exagero do enunciador, que teve a intenção de demonstrar que estava com muito sono.

  • Eufemismo: Figura de linguagem por meio da qual se procura suavizar, tornar menos chocantes palavras ou expressões que são normalmente desagradáveis, dolorosas ou constrangedoras. Exemplo:

“Estavas bem mudado.
Como se tivesses posto aquelas barbas brancas
Para entrar com maior decoro a Eternidade.
[…]
Levamos-te cansado ao teu último endereço.
Vi com prazer
Que um dia afinal seremos vizinhos.
Conversaremos longamente
De sepultura a sepultura
No silêncio das madrugadas […]”.

(Manuel Bandeira)

  • Ironia: Figura de linguagem por meio da qual se enuncia algo, mas o contexto permite ao leitor (ou ouvinte) entender o oposto do que se está afirmando. Exemplos:

“Moça linda bem tratada,
três séculos de família,
burra como uma porta:
um amor!
(Mário de Andrade)

“A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar crianças”.
(Monteiro Lobato)

  • Gradação: Consiste em uma série de palavras ou expressões em que o sentido vai se intensificando continuamente. Exemplos:

“Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião, uns cingidos de luz, outros ensanguentados (…)”. (Machado de Assis).
“Eu era pobre. Era subalterno. Era nada.” (Monteiro Lobato).

  • Onomatopeia: Recurso de expressão por meio do qual se procura reproduzir determinado som ou ruído. Exemplos:

“(…) foguetes, bombas, chuvinhas,
chios, chuveiros, chiando,
chiando
chovendo
chuvas de fogo
chá – Bum?”
(Jorge de Lima)

“E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano.” (Machado de Assis)

“Passa tempo
Tic-tac
Tic-tac
Passa hora chega logo
Tic-tac
Tic-tac
E vai-te embora
Passa tempo
Bem depressa
Não atrasa
Nem demora (…)
(Vinícius de Moraes)

  • Aliteração: consiste em repetir um mesmo som consonantal em uma sequência de palavras para criar um efeito expressivo de sonoridade. Exemplos:

Tanta Tinta

Ah! Menina tonta,
toda suja de tinta
mal o céu desponta!
(Sentou-se na ponte,
muito desatenta…
E agora se espanta:
Quem é que a ponte pinta
com tanta tinta?…)
A ponte aponta
e se desaponta.
A tontinha tenta
limpar tinta,
ponto por ponto
e pinta por pinta…
Ah! a menina tonta!
Não viu a tinta da ponte!

(Cecília Meireles)

 

Luana Alves
Graduada em Letras

você pode gostar também

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.