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China: da intervenção europeia ao massacre da paz celestial em Pequim

Mao Tsé-Tung ou Mao Zedong foi o principal líder da Revolução Chinesa em outubro de 1949, sob o seu comando o país se tornaria uma república comunista. A forte intervenção do Estado em todos os setores da sociedade estimularia uma série de distúrbios sociais. Mao Tsé-Tung a exemplo de outros grandes líderes da história é uma figura controversa, amado por uns e odiado por outros a sua trajetória política continua sendo confundida com a história do Comunismo em todo o mundo.

Mao Tsé-Tung

No século XIX, o território chinês era dominado e dividido entre as grandes potências europeias: França, Grã-Bretanha, Alemanha, Bélgica e até mesmo o vizinho asiático o Japão repartiram a China em zonas de influência com a intenção de expandir os seus mercados consumidores e conquistar matérias-primas e mão-de-obra barata para a crescente industrialização. Antes da invasão dessas potências o país era liderado pela Dinastia Manchu e apresentava uma organização política bem definida sendo exemplo de desenvolvimento para as outras nações asiáticas.

Esse capítulo da História mundial ficaria conhecido como Neocolonialismo e diferente do colonialismo empreendido durantes os séculos XVI e XVII, os colonizadores dessa vez buscavam recursos para abastecer suas indústrias. Ásia, África e a América Latina foram os principais alvos dos conquistadores, as disputas por territórios nesses continentes gerou uma grande tensão internacional. Diferente do continente latino americano e do asiático, no início do século XIX o continente africano apresentava uma organização sócio-política liderada por um sistema tribal. A neocolonização da América Latina se deu através do investimento do capital estrangeiro o que fez aumentar a dependência dos países na economia europeia e norte-americana, já na Ásia e na África a expansão imperialista também contou com a intervenção militar nas regiões dominadas.

A intervenção das potências imperialistas intensificava as tensões sociais dentro das regiões dominadas, na China grande parte da população viva em absoluta miséria em um modelo econômico bastante semelhante ao que predominava na Europa na Idade Média, o feudalismo. 90% das terras estavam acumuladas nas mãos de grandes proprietários, enquanto a população trabalhava em regime de servidão grupos nacionalistas começaram a se organizar na tentativa de expulsar os estrangeiros. A Guerra dos Boxers no final do século XIX é um exemplo do descontentamento da população, os boxers como ficaram conhecidos culpavam os estrangeiros pela situação de pobreza em que viviam os chineses, o movimento matou cerca de duzentos e trinta pessoas de várias partes da Europa o que levou as grandes potencias a organizar um forte exército para colocar fim a revolta.

A superioridade do inimigo ocasionou a morte de milhares de revoltosos e o enfraquecimento da monarquia chinesa. Após o Levante dos Boxers a China foi transformada em uma República, mas o novo governo não conseguiu sanar os problemas sociais do país. Em outubro de 1949 os comunistas organizados no Partido Comunista Chinês se aproveitariam da desorganização social e do enfraquecimento do Partido Nacionalista, o Kuomitang para iniciar a Revolução Socialista na China. Inspirados na revolução comunista ocorrida na União Soviética, os chineses conseguiram em primeiro de outubro de 1949 concretizar o sonho da revolução.

A República Popular da China seria governada a partir de então por Mao-Tsé Tung líder supremo do Partido Comunista chinês. O país se tornaria uma grande potência socialista, ficando atrás apenas do poder dos Estados Unidos e da União Soviética, no entanto a política econômica adotada por Mao “O Grande Salto” baseado na industrialização e associado à coletivização agrária seria um grande fracasso, o que levou ao enfraquecimento do líder comunista. Mas apesar de ter o seu poder limitado Mao continuou exercendo grande influência no país. Nos anos sessenta num processo conhecido como Revolução Cultural Chinesa que se prolongaria até a morte de Mao em 1976, os comunistas tentaram eliminar qualquer tipo de interferência ocidental na China. Milhares de pessoas morreram nos dez anos da Revolução Cultural.

Com a morte de Mao-Tsé Tung os governantes que o sucederam iniciariam uma tentativa de incluir a China no modelo da economia liberal (sem deixar de lado a centralização do poder nas mãos do Partido Comunista Chinês). A China nesse período se torna uma grande exportadora de alimentos, a criação de zonas econômicas especiais abriria espaço para o investimento estrangeiro e a implantação de indústrias direcionadas a exportação. Os pequenos agricultores foram autorizados a comercializar livremente os seus produtos, mas nada disso foi capaz de eliminar a imensa pobreza instalada no país e o descontentamento da população. Ao passo que o país se modernizava e caminhava rumo ao desenvolvimento econômico e tecnológico que transformaria a China em uma das maiores potencias dos anos dois mil, a desigualdade social continuava a crescer em níveis alarmantes.

O auge da insatisfação popular na China ocorreu em 1989 entre os dias quinze de abril e quatro de junho quando milhares de estudantes, camponeses, intelectuais e grupos de trabalhadores foram às ruas protestar contra a corrupção, o desemprego e a inflação, que assolavam o país mesmo com a abertura econômica. A tensão entre os líderes do governo era grande, a crise estava instalada, os dirigentes do Partido Comunista tentarão em vão negociar com os manifestantes. Nas ruas a tensão era grande devido a constante ameaça de uma intervenção militar contra os grupos que manifestavam, apesar do clima de medo cada vez mais pessoas aderiam ao movimento e muitos desacreditavam na possibilidade de um ataque do exército. As manifestações ganharam uma enorme repercussão nacional e internacional, o movimento em pouco tempo de espalharia por trinta e cinco cidades chinesas.

No dia quatro de junho de 1989 os milhares de estudantes que faziam parte do movimente estavam reunidos na Praça da Paz Celestial em Pequim (Tian An Men), os militares que cercavam a praça estavam preparados para uma verdadeira guerra, com tanques e um enorme arsenal bélico. Uma corrente humana foi formada na tentativa de impedir o ataque dos soldados, mas nada adiantou. A ordem dada ao exército era a de disparar contra os estudantes desarmados, alguns fugiram e outros permaneceram para reagir heroicamente, a resistência durou mais de vinte e uma horas.

De acordo com os números apresentados pelo governo apenas trezentas pessoas foram mortas, mas a imprensa internacional duas mil e seiscentas pessoas foram assassinadas. Muitos corpos foram queimados ali mesmo na praça, o que prejudicou uma estimativa correta sobre o verdadeiro número de mortes. Médicos dos hospitais para onde foram levados os corpos e os feridos falam em duas mil mortes e os estudantes universitários denunciaram o desaparecimento de dois mil colegas. Após o movimento o governo ordenou a morte de todos os líderes da revolta. Ainda hoje o Massacre da Paz Celestial é utilizado como exemplo para ilustrar a brutalidade com a qual muitos dos grandes líderes da história conduziram o seu governo.

 

Lorena Castro Alves
Graduada em História e Pedagogia