Ciência desmente mito antigo sobre uso de creatina

Conheça a verdade sobre a creatina que ninguém está te contando.

Apesar de sua fama crescente entre influenciadores e entusiastas da saúde, a creatina ainda é alvo de muitos equívocos, especialmente quando o assunto envolve benefícios cognitivos.

Atualmente, o produto tornou-se uma verdadeira estrela entre os suplementos alimentares. Com promessas que vão desde o aumento da força muscular até a melhora da função cerebral, ele está presente no dia a dia de atletas, praticantes de academia e, mais recentemente, até mesmo de pessoas interessadas em turbinar a memória ou a produtividade no trabalho.

No entanto, muitas das alegações atribuídas à creatina não resistem à análise científica e é justamente aí que mora o perigo.

Enquanto influenciadores digitais e conteúdos virais promovem a creatina como um “milagre em pó”, capaz de auxiliar no emagrecimento, controle glicêmico, tratamento de autismo e prevenção de doenças neurológicas, especialistas alertam: essas afirmações carecem de evidências concretas.

Para que serve, de fato, a creatina?

Naturalmente produzida pelo corpo humano, especialmente pelos rins, fígado e pâncreas, a creatina é formada a partir dos aminoácidos arginina, glicina e metionina. Ela também está presente em alimentos de origem animal, como carnes e peixes, além de ser consumida em forma de suplemento.

Seu uso como suplemento ergogênico, ou seja, capaz de melhorar o desempenho físico, remonta ao século XX.

A validação científica, no entanto, só veio a partir da década de 1990, quando estudos em humanos demonstraram que a suplementação de creatina pode aumentar a concentração da substância nos músculos, melhorando o desempenho em exercícios de curta duração e alta intensidade, como sprints e levantamento de peso.

Creatina (Foto: Shutterstock)

Creatina melhora a cognição? A ciência diz que não

Apesar da popularização da ideia de que a creatina pode também potencializar funções cognitivas, como foco, memória e raciocínio, a ciência ainda não encontrou provas sólidas desses benefícios.

De acordo com Hamilton Roschel, nutricionista e fisiologista da USP, “o conjunto de estudos sobre os efeitos da creatina na função cerebral não oferece sustentação para recomendá-la com esse objetivo”. Pelo contrário: os dados mais robustos disponíveis não mostram efeito positivo da creatina sobre a cognição em pessoas saudáveis.

Além disso, alegações sobre o uso do suplemento no tratamento do autismo, como auxiliar no crescimento infantil, ou como ferramenta para emagrecimento e controle da glicemia, são infundadas, segundo o endocrinologista Clayton Macedo, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Riscos e contraindicações: nem todo mundo deve usar

O uso da creatina não é indicado para todas as pessoas. Indivíduos com histórico de doenças renais ou com função renal comprometida devem evitar o suplemento sem orientação médica.

O mesmo vale para diabéticos, especialmente em quadros descompensados, e para crianças, mesmo com diagnósticos do espectro autista, já que não há recomendação formal de nenhuma sociedade médica confiável para o uso de creatina em menores de idade saudáveis.

Mas não para por aí: um levantamento da Anvisa, feito com 41 marcas de creatina disponíveis no Brasil, revelou um dado alarmante: apenas um dos produtos testados cumpria todos os requisitos de qualidade, como a concentração adequada do composto, ausência de impurezas e rotulagem correta.

O resultado acende o alerta sobre o consumo indiscriminado de suplementos de procedência duvidosa.

Vale a pena tomar creatina?

Para atletas de elite, que vivem a diferença de milissegundos em competições, a creatina pode representar um ganho real, entre 3% e 5% de melhoria de desempenho. Para a maioria dos praticantes amadores, entretanto, os efeitos são limitados ou até imperceptíveis.

É importante destacar que descanso adequado, alimentação equilibrada e um bom planejamento de treinos costumam ter impacto muito maior na performance física do que qualquer suplemento isolado.

A creatina tem seu valor, especialmente no contexto do desempenho esportivo, mas precisa ser usada com responsabilidade e sob orientação de profissionais da saúde.

Promessas exageradas sobre seus efeitos cognitivos ou terapêuticos são, até o momento, infundadas. O consumo deve ser individualizado, considerando as condições clínicas, objetivos e estilo de vida de cada pessoa.

A mensagem final é clara: creatina não é uma panaceia. Quando bem indicada, pode ser uma aliada. Fora disso, é apenas mais um suplemento envolto em exageros.

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