11 Poemas Sobre a Água

Veja esta seleção de poemas que abordam uma das temáticas mais importantes da atualidade: a importância da água para os seres humanos.

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Sabendo que a água própria para o consumo humano é um recurso finito, as discussões em torno do tema tornam-se mais profundas a cada ano. Tendo em vista a possibilidade de racionamentos e falta desse bem tão precioso, cada ser humano deve tomar consciência da importância da sua contribuição com a economia de água.

Pensando em formas de cuidar da água, e alertar as pessoas sobre o quanto é importante preservá-la, a partir de 22 de março de 1992 a Organização das Nações Unidas (ONU), instituiu o Dia Mundial da Água, que desde então é comemorado todos os anos.

Neste mesmo dia, a ONU lançou um documento chamado de Declaração Universal dos Direitos da Água. Os dez artigos nos quais ela se divide também tem o intuito de conscientizar sobre como é imprescindível gerir os recursos hídricos de forma equilibrada e consciente.

A cada ano, a ONU estabelece um tema para o Dia Mundial da Água, e entre os que já foram trabalhados estão: “Cuidar de nossos recursos hídricos é função de cada um”, “Águas do Mundo: há suficiente?” e “Água limpa para um mundo saudável”.

Como meio de conscientizar as crianças desde os primeiros anos da educação, muitas escolas já adotam semanas totalmente voltadas para água. Durante estes dias, professores e toda a equipe pedagógica trabalham diferentes abordagens, entre elas, estão os textos e poesias com essa temática.

Além de suscitar debates sobre o assunto, os poemas sobre a água podem se encaixar em diversas disciplinas, o que é uma vantagem, já que muitas escolas, nessas ocasiões, procuram promover atividades interdisciplinares.

A água – Manuel Maria Barbosa du Bocage

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos

tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber às fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

Os rios – João Cabral de Melo Neto

Os rios que eu encontro
vão seguindo comigo.
Rios são de água pouca,
em que a água sempre está por um fio.
Cortados no verão
que faz secar todos os rios.
Rios todos com nome
e que abraço como a amigos.
Uns com nome de gente,
outros com nome de bicho,
uns com nome de santo,
muitos só com apelido.
Mas todos como a gente
que por aqui tenho visto:
a gente cuja vida
se interrompe quando os rios.

Nossa sabedoria – Carlos Nejar

Nossa sabedoria é a dos rios.
Não temos outra.
Persistir. Ir com os rios,
onda a onda.
Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero.
Passaremos límpidos.
E nos moveremos,
rio dentro do rio,
corpo dentro do corpo,
como antigos veleiros.

Lição sobre a água – António Gedeão

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, base e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

A falta d’água no mundo – João Batista Melo

De novo bem realista
a ONU vem alertar
que na África e na China
a água pode faltar
e conforme este argumento
não tendo planejamento
muita gente vai dançar

Sonho um Brasil d’água limpa
e vida cheia de moral
vencendo a poluição
e qualquer um temporal
se no mundo água faltar
vamos daqui sustentar
a demanda mundial

E vamos exportar água
em garrafões ou barril
com a marca registrada
” the água made in Brazil”
pra ditadores malvados
nem tendo Euros trocados
não vendemos nem um til

Recuperar nossas águas
é nosso grande dever
e convido a juventude
para lutar e vencer
e se alguém quiser mais água
seja China ou Nicarágua
termos pra dar e vender

E não se deve estranhar
se a escassez do produto,
levar potência estrangeira
a construir aguaduto
até por baixo do mar
a fim de daqui levar
água mais pra seu reduto

Temos de ser otimistas
em qualquer situação
só queremos que alguém
nos indique a direção
faça um cordel bem bonito
ilustrado e bem escrito
e mostre a população

Pois nosso caso é dramático
Não dá pra se brincar
A FALTA D’ ÁGUA NO MUNDO
é coisa de arrepiar
se não houver uma ação
até em nossa nação
a água pode faltar

Trucidaram o rio – Manuel Bandeira

Prendei o rio
Maltratai o rio
Trucidai o rio
A água não morre
A água que é feita
de gotas inermes
Que um dia serão
Maiores que o rio
Grandes como o oceano
Fortes como os gelos
Os gelos polares
Que tudo arrebentam.

Tumulto – Cecília Meireles

Tempestade… O desgrenhamento
das ramagens… O choro vão
da água triste, do longo vento,
vem morrer-me no coração.

A água triste cai como um sonho,
sonho velho que se esqueceu…
( Quando virás, ó meu tristonho
Poeta, ó doce troveiro meu!…)

E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,`
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará…

Água doce, doce água – Evelyn Heine

De mar é feita a terra,
De água é feita a gente.
Abaixo o desperdício!
Poupar água: coisa urgente!

Clara, doce ou gelada,
Verde, azul ou transparente,
Sem a água não há nada.
Nem floresta, nem semente.

Água doce mata a sede,
Água doce é a que lava.
Cachoeira, rio ou fonte…
Só não pode ser salgada.

Tanto bate até que fura,
Diz ditado popular…
Cuida dela! Você jura?
Vamos economizar!

No alto mar – Sophia de Mello Breyner Andresen

No alto mar
A luz escorre
Lisa sobre a água.
Planície infinita
Que ninguém habita.

O Sol brilha enorme
Sem que ninguém forme
Gestos na sua luz.

Livre e verde a água ondula
Graça que não modula
O sonho de ninguém.

São claros e vastos os espaços
Onde baloiça o vento
E ninguém nunca de delícia ou de tormento
Abre neles os seus braços.

O Rio – Gilberto Mendes Teles

O que me agrada no rio,
o que melhor me convém
nas suas águas de cio
e de tristeza também

é a cantiga de quem
viaja por desfastio,
sem saber que o mar além
seja distante ou vazio.

O rio não perde o fio
de tempo que vai e vem
entre a nascente e o cilício
da foz que sempre contém

o que se quer como um bem
que, sendo embora tardio,
é sombra de peixe e tem
seu melhor tempo no rio.

Gole d’água – Mário Quintana

Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na
[floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição
[de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

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