Conheça Conceição Evaristo, a alma da mulher negra na Literatura Brasileira

A escritora mineira de 71 anos concorreu a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e coleciona obras de grande importância, inclusive publicadas no exterior.

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Em junho de 2018, o Brasil iniciou uma campanha em favor da escolha de uma autora para ocupar a cadeira de número sete na Academia Brasileira de Letras (ABL). Mas, não era qualquer autora. Tratava-se de Maria da Conceição Evaristo de Brito, nossa Conceição Evaristo, a mais pura representação da voz negra feminina na Literatura Brasileira.

A campanha pode até não ter chegado ao fim com o resultado esperado (Conceição perdeu a eleição para o cineasta Cacá Diegues). Porém, a escritora mineira de 71 anos, segue na sua luta pelo reconhecimento das mulheres negras como produtoras de conhecimento. Afinal, ninguém melhor que ela para defender a literatura como um ato político!

Quem é Conceição Evaristo?

Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte (MG), no dia 29 de novembro de 1946, em uma família pobre que vivia na zona sul da capital mineira. Conseguiu concluir seus estudos no curso normal aos 25 anos, conciliando a vida acadêmica com o trabalho como doméstica.

Formada, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou em concurso público para o magistério. Complementando sua formação, cursou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na década de 80, Conceição teve seu primeiro contato com o grupo Quilombohoje, coletivo cultural responsável pela publicação da série Cadernos Negros.

Foto de Conceição Evaristo

E foi justamente nesses cadernos que a mineira fez sua estreia na Literatura, em 1990. Hoje, é mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Autora de obras traduzidas em outros idiomas e publicadas no exterior, a escritora leciona como professora visitante na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Militante ativa do movimento negro, Conceição registra sua participação em eventos relacionados a militância política social. Em 2017, foi tema da Ocupação do Itaú Cultural de São Paulo, sobre aspectos de sua vida e literatura. Versátil, a escritora publica poesias, ensaios e ficções, vendo seus textos serem lidos por um número cada vez maior de leitores.

Um de seus principais títulos foi o romance Ponciá Vicêncio, escrito em 2003. A obra aborda temas muito discutidos por Conceição, como a discriminação racial, de gênero e de classe. O livro foi traduzido para o inglês e publicado nos Estados Unidos em 2007. Isso sem falar em suas participações de publicações alemãs, americanas e inglesas.

Sua principal luta está no reconhecimento da mulher negra como legítima produtora de saber e conhecimento. Por isso, “bate na tecla” do baixo número de representantes negras em listas de prêmios e nos catálogos das grandes editoras. Mas, segue na crença de que escrever e contar histórias é a melhor maneira de enfrentar o preconceito.

Principais obras

Como mencionamos na seção anterior, uma das principais obras de Conceição Evaristo é Ponciá Vivêncio, lançada em 2003. A história conta com narrativa não-linear marcada por cortes temporais misturando, assim, passado e presente. A genialidade do livro o fez ser incluído nas listas de vestibulares de instituições em todo o país.

Em 2006, a autora publica Becos da Memória na qual, mais uma vez, trata da remoção de uma comunidade favelada com a mesma dramaticidade do título anterior. Nele, assim como em tantas de suas obras, a figura feminina surge como protagonista da resistência à pobreza e à discriminação.

No ano de 2011, é publicado o volume de contos Insubmissas Lágrimas de mulheres, novamente mencionando as relações de gênero no contexto social marcado pelo sexismo e machismo. Já em 2014, a autora lança Olhos d´Água, livro que chegou à final do Prêmio Jabuti na categoria “Contos e Crônicas”.

Candidatura à Academia Brasileira de Letras

Em junho de 2018, Conceição Evaristo oficializou sua candidatura à ABL, entregando sua carta de apresentação para concorrer à cadeira número sete, já pertencente à Castro Alves. O Portal da Literatura Afro-Brasileira cita um trecho da carta, no qual a autora expressa seu “desejo e disposição de diálogo e espero por essa oportunidade”.

Uma campanha de grandes proporções movimentou redes sociais e meios acadêmicos em favor da escolha de Conceição. A eleição ocorreu em 30 de agosto e a autora recebeu um voto para ocupar a almejada cadeira. No entanto, o eleito foi o cineasta Cacá Diegues, um dos fundadores do chamado Cinema Novo.

Mesmo não sendo eleita na ABL, Conceição Evaristo seguiu sendo justamente homenageada pelo conjunto de sua obra. As menções honrosas mais recentes deram-se no Livre! Festival Internacional de Literatura e Direitos Humanos e a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Obras de Conceição Evaristo

Romance

  • Ponciá Vicêncio (2003)
  • Becos da Memória (2006)

Poema

  • Poemas da recordação e outros movimentos (2017)

Contos

  • Insubmissas lágrimas de mulheres (Editora Malê, 2016 )
  • Olhos d`água (Editora Pallas, 2014) .
  • Histórias de leves enganos e parecenças (Editora Malê, 2016)

Participações em antologias

  • Cadernos Negros (Quilombhoje, 1990)
  • Contos Afros (Quilombhoje)
  • Contos do mar sem fim (Editora Pallas)
  • Questão de Pele (Língua Geral)
  • Schwarze prosa (Alemanha, 1993)
  • Moving beyond boundaries: international dimension of black women’s writing (1995)
  • Women righting – Afro-brazilian Women’s Short Fiction (Inglaterra, 2005)
  • Finally Us: contemporary black brazilian women writers (1995)
  • Callaloo, vols. 18 e 30 (1995, 2008)
  • Fourteen female voices from Brazil (EUA, 2002), Estados Unidos
  • Chimurenga People (África do Sul, 2007)
  • Brasil-África
  • Je suis Rio, éditions Anacaona, juin 2016.

Obras publicadas no exterior

  • Ponciá Vicencio. Trad. Paloma Martinez-Cruz, Austin: Host Publications, 2007.
  • L’histoire de Poncia, traduzido por Paula Anacaona, collection Terra, éditions Anacaona. 2015.
  • Banzo, mémoires de la favela, traduzido por Paula Anacaona, collection Terra, éditions Anacaona.

Fonte: Wikipedia

Prêmios

  • Prêmio Jabuti de Literatura ,2015
  • Faz a Diferença – Categoria Prosa, 2017
  • Prêmio Cláudia – Categoria Cultura, 2017
  • Prêmio Bravo! – Categoria Destaque, 2018
  • Prêmio Governo de Minas Gerais – categoria Conjunto da Obra, 2018

Frases de Conceição Evaristo

  • “Eu não nasci rodeada de livros e, sim, rodeada de palavras”
  • “Minha escrita é contaminada pela condição de mulher negra”
  • “O imaginário brasileiro, pelo racismo, não concebe reconhecer que as mulheres negras são intelectuais”

Poemas Conceição Evaristo

Eu-Mulher
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Filhos na rua
O banzo renasce em mim.
Do negror de meus oceanos
a dor submerge revisitada
esfolando-me a pele
que se alevanta em sóis
e luas marcantes de um
tempo que aqui está.

O banzo renasce em mim
e a mulher da aldeia
pede e clama na chama negra
que lhe queima entre as pernas
o desejo de retomar
de recolher para
o seu útero-terra
as sementes
que o vento espalhou
pelas ruas…
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Meia lágrima
Não,
a água não me escorre
entre os dedos,
tenho as mãos em concha
e no côncavo de minhas palmas
meia gota me basta.

Das lágrimas em meus olhos secos,
basta o meio tom do soluço
para dizer o pranto inteiro.

Sei ainda ver com um só olho,
enquanto o outro,
o cisco cerceia
e da visão que me resta
vazo o invisível
e vejo as inesquecíveis sombras
dos que já se foram.

Da língua cortada,
digo tudo,
amasso o silencio
e no farfalhar do meio som
solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior,
aquela que emudecida,
conservou a voz e os sentidos
nos labirintos da lembrança.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Menina
Menina, eu queria te compor
Em verso,
Cantar os desconcertantes
Mistérios
Que brincam em ti,
Mas teus contornos me
Escapolem.
Menina, meu poema primeiro,

Cuida de mim.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

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