Conheça José Marcos, o morador de rua que vende livros para subir na vida

Às vésperas do Dia Nacional do Livro, a história do homem que promove a leitura como ferramenta para deixar uma condição marginalizada e garantir uma vida digna na cidade dos pais.

O sol ainda nem raiou, mas ele já está de pé. Guarda seu colchonete e começa a organizar seus itens de venda. Logo, os primeiros fregueses podem chegar! A todos os passantes, o homem cumprimenta com um sorriso verdadeiro de “bom dia”.

Inicialmente, uma rotina comum de quem trabalha com vendas, não fosse um detalhe importante: trata-se de um morador de rua que vende livros para sobreviver nas ruas do Rio de Janeiro.

Esse é o dia-a-dia de José Marcos de Souza. Aos 55 anos, ele faz da calçada de uma rua na Praia do Flamengo, onde vive há três anos, a vitrine para expor seu ganha pão. Os livros são todos doados e, como todo bom vendedor, acabou conhecido por toda a vizinhança.

Popularidade que o ajuda a receber, não só livros, mas também, roupas, calçados e comida. Só que a vida de morador de rua nunca é fácil e José enfrenta
a hostilidade de algumas pessoas que vivem por ali.

FOTO: BBC NEWS

A intolerância já chegou ao ponto de fazê-lo ser atingido por ovos lançados por condôminos de um prédio. A perseguição também vem das autoridades municipais chamadas para tirá-lo do seu ponto de venda.

A história de José foi contada em um artigo publicado pela BBC. À reportagem, ele desabafa. “Viver na rua é amargo. Você tem que ouvir um monte de desaforo sem poder reagir, sem poder se defender”.

Mas, José Marcos é brasileiro e não desiste nunca! Aos maus tratos, ele responde com simpatia e poesia. Fã de Carlos Drummond de Andrade, o homem que completou o Ensino Fundamental registra suas próprias escritas líricas em caderno que guarda na mala.

Da família para as ruas

A vida de José Marcos nem sempre foi essa. Antes, ele morava com a irmã na cidade de Niterói. Porém, as coisas mudaram quando, após um desentendimento familiar, decidiu sair de casa.

A partir daí, foi vivendo de trabalhos temporários. Coleciona experiências como caseiro, repositor de mercadorias em supermercado, balconista e garçom.

O estigma de viciados e marginais que moradores de rua carregam, José Marcos faz questão de desmistificar. “Quem está na rua não é ladrão. Quem está na rua tem necessidades.”

Mais de 3,7 mil pessoas fazem parte da realidade de José Marcos. Esse é o número registrado pelo “Somos Todos Cariocas”, levantamento feito pela prefeitura do Rio em janeiro deste ano. Além destas que vivem nas ruas, outras 913 estão em abrigos.

Souza inclusive já passou um tempo no centro de acolhimento localizado na zona oeste, mais precisamente no bairro de Jacarepaguá. Porém, afirma ter se sentido deslocado e chegou a se questionar se não estava tirando a vaga de quem realmente precisava. “Eu preciso de uma casa, não de um abrigo”, frisa.

Planos para o futuro

José ganha a vida como vendedor de livros, certo? Mas, o que faz com todo o dinheiro que sobra? Deposita em uma conta bancária! Assim, espera realizar o sonho de comprar uma casa em Governador Valadares, cidade natal dos pais no interior de Minas Gerais.

Aos que promovem a invisibilidade dos moradores de rua, José Marcos, o vendedor de livros da Praia do Flamengo, deixa um recado. “Eu gostaria que as pessoas me vissem como um ser humano (…) que está tentando vencer na vida. Qual seria o jeito melhor para eu vencer? Será que é roubando, matando as pessoas? O certo, para eu poder vencer, é vender os meus livros. É a única maneira.

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