Dez poemas de Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, interior de Minas Gerais, no dia 31 de outubro de 1902. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 84 anos de idade, no dia 17 de agosto de 1987.

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A história da literatura brasileira não seria a mesma sem Carlos Drummond de Andrade. Um dos nomes mais importantes de nossas letras é também considerado o maior poeta brasileiro do século XX, Drummond deixou uma extensa obra poética, além de contribuições para o conto e para a crônica, dois gêneros aos quais também se dedicou durante toda sua carreira, iniciada com a publicação do livro Alguma poesia, em 1930.

Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de outubro de 1902 na pequena cidade de Itabira do Mato Dentro (hoje apenas Itabira), interior do estado de Minas Gerais. Filho de uma tradicional família de fazendeiros e mineradores, duas das atividades que predominavam na região à época, estudou com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, mas foi em Ouro Preto, cidade mineira, onde formou-se farmacêutico, profissão que o escritor não chegou a exercer.

Aos vinte e três anos, em 1925, ajudou a fundar A Revista, publicação que representava a estética modernista (que eclodira no ano de 1922 com a realização da Semana de Arte Moderna em São Paulo) em Belo Horizonte. Embora tenha se identificado com os ideais modernos, Drummond jamais se considerou como tal, ainda que sua obra esteja cronologicamente associada à Geração de 1930 da poesia brasileira.

Ingressou no serviço público no ano de 1934, como chefe de gabinete do então Ministro da Educação do governo Getúlio Vargas, Gustavo Capanema. Começava aí sua história com a cidade do Rio de Janeiro, onde residiria até o final de sua vida e com a qual o poeta mostrava total identificação. Itabira tornou-se “apenas uma fotografia na parede”, como nos revela em Confidência do itabirano, um de seus mais conhecidos poemas, pertencente à fase memorialista de sua obra. Posteriormente transferiu-se para o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, aposentando-se no ano de 1962.

Simultaneamente à pacata vida de funcionário público, Drummond compunha sua obra e colaborava como cronista em dois grandes jornais, Correio da manhã e Jornal do Brasil. Para esse último o poeta colaborou durante quinze anos, em um período que corresponde aos anos de 1969 e 1984: três vezes na semana suas crônicas eram veiculadas nas páginas do Caderno B, suplemento de cultura de um dos mais influentes jornais do Brasil. A parceria com o jornal ajudou a popularizar a obra de Carlos Drummond de Andrade, que já respondia sob o epíteto de maior poeta brasileiro do século XX.

Além de poeta, contista e exímio cronista, Carlos Drummond de Andrade foi também tradutor de grandes nomes da literatura universal, como Balzac, Chordelos de Laclos, Marcel Proust, García Lorca, François Mauriac e Molière. Ao mesmo tempo em que traduzia, era traduzido para outros idiomas, entre eles o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco, entre outras línguas, fato que permitiu que sua obra fosse difundida em várias partes do mundo, despertando o interesse de leitores e estudiosos.

Deixou uma extensa obra literária, obra que revela as impressões sensíveis de quem atravessou o século atento à vida dos homens, obra que deixa explícita a indissociável relação entre a literatura e a História. O poeta faleceu no dia 17 de agosto de 1987, na cidade do Rio de Janeiro, poucos dias após o falecimento de sua única filha, a também escritora Maria Julieta Drummond de Andrade. Sua morte, contudo, não calou a voz do poeta, que ainda hoje permanece vivo em sua obra atemporal.

O Escola Educação quer que você conheça melhor a poesia daquele que é considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa e o maior poeta da literatura brasileira de todos os tempos. Para isso, selecionamos para você dez poemas de Carlos Drummond de Andrade, poemas que certamente deixarão você curioso para conhecer cada vez mais a arte desse inigualável e genial escritor. Boa leitura.

 

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

 

 

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

 

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

 

 

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

 

Mas as coisas findas
“Mas as coisas findas/ muito mais que lindas,/ essas ficarão”

 

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

 

Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.
Carlos Drummond de Andrade

Luana Alves
Graduada em Letras

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  1. Lidyanne Chaves Diz

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