Intertextualidade

Intertextualidade acontece quando os textos conversam entre si, estabelecendo assim uma relação dialógica, representada em citações, paródias ou paráfrases.

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Você sabe o que é intertextualidade? A intertextualidade é um recurso textual muito interessante! Ele é capaz de mostrar toda a competência linguística de um autor, uma vez que deixa explícito, ou implícito, o diálogo de um texto com outros textos, os chamados textos-fonte. Saber usar esse recurso não é privilégio de todos, pois é preciso, além do conhecimento sobre a língua, uma ampla bagagem cultural. Como você já deve saber, uma ampla bagagem cultural só pode ser adquirida com bastante leitura, ou seja, se você deseja aprimorar as técnicas de escrita, é indispensável que seja um bom leitor.

A Linguística Textual, disciplina que aborda os estudos sobre o texto, é a área da língua portuguesa responsável por estudar o fenômeno da intertextualidade. Ela pode acontecer quando um texto está inserido em outro texto, seja de maneira implícita (quando não há citação expressa do texto-fonte) ou explícita (quando há citação do texto-fonte). Os textos-fonte são aqueles textos considerados fundamentais em uma determinada cultura por fazerem parte do imaginário coletivo.

Quer ver só um exemplo? Em nossa literatura, Dom Casmurro, de Machado de Assis, pode ser considerado um texto-fonte, uma vez que, a partir da história de Bentinho e Capitu outras narrativas puderam ser elaboradas sob a mesma temática: a dúvidas sobre a traição da mulher amada. Podemos afirmar que toda a literatura clássica é fonte de ideias, inspirando escritores da nova geração.

Quer um exemplo claro de intertextualidade? O poema Canção do exílio, do poeta romântico Gonçalves Dias, é um dos textos que mais foram parodiados e parafraseados em nossa literatura. Veja o texto-fonte e os demais textos que com ele estabelecem um interessante diálogo:

Canção do exílio (texto-fonte)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Nova Canção do Exílio
Carlos Drummond de Andrade

 

Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.

O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.

Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.

Onde é tudo belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá,
na palmeira, longe.)

Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.

Canção do exílio
Murilo Mendes

 

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Viu só? Tanto Carlos Drummond de Andrade quanto Murilo Mendes, dois nomes do Modernismo brasileiro, apropriaram-se de características do texto original de Gonçalves Dias. A intertextualidade, nesse caso, acontece de maneira explícita, já que o título do poema do romântico foi citado, além de ser possível encontrar diversas semelhenças entre os textos. Enquanto Drummond escolheu a paráfrase, Mendes optou pela paródia. Veja abaixo a características de cada um dos tipos de intertextualidade:

  • Paráfrase: A paráfrase consiste em reproduzir as ideias de um texto utilizando novas palavras dentro de uma nova roupagem. Esse tipo de recurso textual é muito utilizado em resumos, atas e relatórios, gêneros textuais que fazem parte de nosso cotidiano. Note que no poema de Carlos Drummond de Andrade os sentidos do texto-fonte (a Canção do exílio de Gonçalves Dias) não foi alterado, tampouco a intenção do poeta foi satiriza-lo.
  • Paródia: Na paródia não há compromisso com os sentidos originais do texto, pelo contrário, há uma clara intenção de recriá-lo de maneira satírica ou crítica. Podemos afirmar que a paródia tem como objetivo tecer uma crítica ao texto-fonte. Além da paráfrase e da paródia, a intertextualidade pode ser feita também por meio da citação:
    • Citação: A citação é um procedimento intertextual que acontece quando um texto reproduz outro texto ou parte dele. Essa reprodução é sinalizada por alguns marcadores, como as aspas. Dessa maneira, o texto deixa explícito que o trecho ou o texto citado foi tirado de um texto-fonte. Observe o exemplo, nele o cartunista Caulos faz uma citação do poema de Gonçalves Dias:
Canção do exílio, Caulos.
A intertextualidade pode ser encontrada nos mais variados gêneros, entre eles as histórias em quadrinhos e anúncios publicitários.

A intertextualidade é um dos assuntos mais cobrados em provas de concursos e vestibulares, entre eles o Enem. Quer ver só como ele já caiu no Exame Nacional do Ensino Médio? Confira o exercício e seu comentário:

(Enem 2009)

Texto 1
No meio do caminho
No meio do caminho tinha
uma pedra
Tinha uma pedra no meio
do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha
uma pedra
ANDRADE, C. D. Antologia poética. Rio de Janeiro/ São Paulo: Record, 2000. (fragmento).

Texto 2

Tirinha do Garfield
A intertextualidade pode acontecer por meio de diferentes maneiras: paráfrase, paródia e citação.

A comparação entre os recursos expressivos que constituem os dois textos revela que

  • o texto 1 perde suas características de gênero poético ao ser vulgarizado por histórias em quadrinho.
  • o texto 2 pertence ao gênero literário, porque as escolhas linguísticas o tornam uma réplica do texto 1.
  • a escolha do tema, desenvolvido por frases semelhantes, caracteriza-os como pertencentes ao mesmo gênero.
  • os textos são de gêneros diferentes porque, apesar da intertextualidade, foram elaborados com finalidades distintas.
  • as linguagens que constroem significados nos dois textos permitem classificá-los como pertencentes ao mesmo gênero.

Resolução:
Letra D. A história em quadrinhos retoma um texto de Carlos Drummond de Andrade, no caso, o famoso poema No meio do caminho. Conhecer o poema é fundamental para compreender a paródia realizada nos últimos quadrinhos da história, caso contrário o candidato dificilmente perceberá o recurso da intertextualidade. Enquanto o texto 1 faz uma reflexão existencial e filosófica, o texto 2 apresenta o claro objetivo de provocar o efeito de humor no leitor.

Luana Alves
Graduada em Letras

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