Pierre Bourdieu, o sociólogo do conflito

O pensador foi um crítico de todas as instituições, inclusive da própria sociologia, e seu raciocínio é uma das chaves para entender os jogos de poder dentro da sociedade desigual.

Quem foi Pierre Bourdieu? Pierre Bourdieu é considerado um dos maiores sociólogos do último século. Sua vasta produção intelectual trata principalmente da perpetuação da desigualdade social em diversas instituições. Um crítico ferrenho do liberalismo e da globalização, foi pioneiro na mudança de paradigma sobre a pretensa neutralidade da escola, da mídia, do liberalismo e da globalização.

Bourdieu também criticou a própria sociologia, fazendo o que foi chamado de “Sociologia da Sociologia”. Para ele, seria proveitoso aproveitar o método científico para fortalecer a sociologia como ciência. Isso se daria por meio do uso do arcabouço dos grandes pensadores das ciências humanas, do uso de estatística, da etnografia e dos procedimentos metodológicos rigorosos.

Conceitos

Segundo ele, o que faz com que indivíduos se orientem na hierarquia social são as relações econômicas, simbólicas (status) e culturais entre os eles. Os grupos estão posicionados diferentemente nessa estrutura social porque há desigual distribuição de recursos. A incorporação desse conjunto de recursos pelos indivíduos foi conceituada como habitus, algo que influencia os sujeitos a ponto de eles confirmarem e reproduzirem a estrutura social, às vezes inconscientemente.

Além de habitus, o filósofo cunhou dois outros conceitos para amparar seu trabalho. O conceito de campo, o espaço onde os humanos atuam e onde se desenrolam seus conflitos. O outro, o de capital, que, diferentemente do conceito marxista, não significa necessariamente posses ou dinheiro. Os indivíduos se situam nos campos também com o capital social, cultural, econômico e simbólico.

Críticas

De posse desses conceitos, Pierre Bourdieu pôde discorrer sobre seus temas de interesse. Notavelmente, teceu críticas à escola, que é o espaço onde, segundo ele, o capital econômico se transforma em capital cultural, ou seja, famílias ricas investem em uma boa educação para seus filhos enquanto pobres não podem fazer o mesmo, assim perpetuando a distribuição desigual de recursos.

Pierre Bourdieu também analisou as práticas culturais entre diferentes grupos, chegando à conclusão de que o gosto cultural é determinado pela história de vida e da educação do indivíduo. Até então, o consenso era de que o gosto era uma sensibilidade inata que todos possuíam. O desdobramento dessa conclusão é que o acesso à cultura está condicionada à uma educação artística que, geralmente, vem do seio familiar, e não está disponível a todos.

Frases

  • “Os circuitos de consagração são tanto mais poderosos quanto mais longos são, mais complexos e mais escondidos, até mesmo aos próprios olhos dos que neles participam e deles beneficiam” (Pierre Bourdieu – Questões de Sociologia)
  • “a maior parte das palavras de que dispomos para falar o mundo social oscilam entre o eufemismo e a injúria” (Pierre Bourdieu – Questões de Sociologia)
  • “O ressentimento ligado ao fracasso só torna quem o experimenta mais lúcido em relação ao mundo social, cegando-o ao mesmo tempo em relação ao próprio princípio dessa lucidez”. (Pierre Bourdieu – Questões de Sociologia).
  • “O campo artístico é lugar de revoluções parciais que alteram a estrutura do campo sem porem em questão o campo enquanto tal e o jogo que nele se joga”. (Pierre Bourdieu – Questões de Sociologia).

Livros

  • A Dominação Masculina, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1999.
  • Sobre a Televisão, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
  • O Senso Prático, Petrópolis, Vozes, 2009
  • A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino, Lisboa: Editorial Vega, 1978
  • Questões de Sociologia, Lisboa: Fim de Século, 2003
  • O Que Falar Quer Dizer: a economia das trocas simbólicas, Algés: Difel, 1998.
  • A Economia das Trocas Simbólicas, São Paulo, Editora Perspectiva S.A., 2003
  • O Poder Simbólico, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1992.
  • As Regras da Arte: génese e estrutura do campo literário, Lisboa: Presença, 1996
  • Razões Práticas: Sobre a teoria da ação, Campinas, Papirus Editora, 1996
  • Razões Práticas: sobre a teoria da acção, Oeiras: Celta Editora, 1997
  • Contrafogos: táticas para resistir à invasão neoliberal. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
  • Meditações Pascalianas, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.
  • Contrafogos 2: por um movimento social europeu. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
  • A Produção da Crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos, Porto Alegre, Editora Zouk, 2001
  • As Estruturas Sociais da Economia, Lisboa: Instituto Piaget, 2001
  • Lições da Aula: aula inaugural proferida no Collége de France em 23 de abril de 1982. São Paulo: Ática, 2001.
  • Esboço de Uma Teoria da Prática, Precedido de Três Estudos de Etnologia Cabila, Oeiras: Celta Editora, 2002
  • O Amor Pela Arte: museus de arte na europa e seu público, Porto Alegre, Editora Zouk, 2003
  • A Miséria do Mundo. Petrópolis: Vozes, 2003.
  • Esboço para uma Autoanálise, Lisboa : Edições 70, 2004
  • Para uma Sociologia da Ciência, Lisboa: Edições 70, 2004 (Trad. de: Science de la science et reflexivité)
  • Os Usos Sociais da Ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Editora UNESP, 2004.
  • Ofício de Sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Petrópolis: Vozes, 2004. (em colaboração com Jean-Claude Chamboredon e Jean-Claude Passeron.)
  • A Distinção: crítica social do julgamento, Porto Alegre, Editora Zouk, 2007.
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