O universo poético: Como criar um poema

O poema é uma estrutura textual formada por palavras e expressões significativas.


Escrever é uma modalidade de comunicação cujo objetivo é transmitir alguma informação ao emissor. Esta modalidade pode ser construída de diversas formas.

Os sistemas literários ramificam a escrita em três gêneros: gênero lírico, épico e dramático.

Tanto a prosa quanto o poema podem ter características desses três gêneros literários.

Hoje, adentraremos no estudo dos elementos estruturais e temáticos que compõe o poema. Além disso, destacaremos dicas de criação poética.

O que é um poema?

Poema é uma estrutura textual formada por palavras e expressões significativas.

O que compõe um poema?

Nesta estrutura textual há o verso, que é uma sucessão de sílabas ou fonemas formando uma unidade rítmica que corresponde a uma linha. Existem também as estrofes ou estâncias, que são agrupamentos de versos.

Veja um exemplo:

Soneto de fidelidade, Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento (primeiro verso)
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto (segundo verso)
Que mesmo em face do maior encanto (terceiro verso)
Dele se encante mais meu pensamento. (quarto verso)

 

Quero vivê-lo em cada vão momento (quinto verso)
E em seu louvor hei de espalhar meu canto (sexto verso)
E rir meu riso e derramar meu pranto (sétimo verso)
Ao seu pesar ou seu contentamento. (oitavo verso)

[…]

No poema acima vemos oito versos e duas estrofes.

Além disso, em geral, os versos são medidos pela métrica. Para identificarmos a métrica é necessário a divisão dos versos em sílabas poéticas. Este processo é denominado como escansão.

Exemplo:

        Mas / que / se / ja in / fi / ni/ to en/ quan / to / du / re.

A divisão vista acima obedece aos princípios da divisão silábica poética.

Nestas divisões os versos recebem os seguintes nomes: monossílabo (uma sílaba), dissílabo (duas), redondilha menor (cinco), redondilha maior (sete), decassílabo (dez), alexandrino (doze), etc.

Devemos ressaltar, ainda, que os versos cuja métrica se repete são denominados versos regulares.

Ainda no quesito estrutural do poema, deve-se ressaltar a presença de ritmo, que é a alternância de sílabas acentuadas e não acentuadas. Esta acentuação é determinada pela sequência melódica a que ela pertence.

Exemplo:

De tudo, ao meu amor serei atento.
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

No tocante aos elementos sonoros, o poema geralmente é constituído de rimas.

Rimas são recursos musicais baseados na semelhança de sons das palavras no final dos versos e, às vezes, dentro dos versos.

Exemplo:

Noturno no Morro do Encanto, Manuel Bandeira

Este fundo de hotel é um fim de mundo!
Aqui é o silêncio que tem voz. O encanto
Que deu nome a este morro, põe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

[…]

Há poemas em que os versos apresentam tamanhos variados e não contêm rimas. Poemas com essas características são denominados como poemas em versos brancos.

Exemplo:

Poema do beco, Manuel Bandeira

Que importa a paisagem
a Glória, a baía, a linha
do horizonte?

– O que eu vejo é o beco.

Há outros recursos sonoros de extrema importância para a construção de um poema como, por exemplo:

  • A aliteração é uma figura fonética que repete os sons consonantais idênticos ou semelhantes no início das palavras.

Exemplo:

Ele era bruto, bravo, como a agreste região onde nascera e morrera.

  • A assonância, que repete o mesmo som vocálico.

Exemplo:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras.

(Cruz e Sousa)

  • O paralelismo, que repete as ideias e palavras que se correspondem quanto ao sentido.

Exemplo:

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre

[…]

(Fernando Brandt e Milton Nascimento)

  • A paronomásia, que aproxima as palavras de um texto pela sua semelhança na forma ou no som.

Exemplo:

Como um eco que vem na aragem

A estrigir, rugir e mugir, 

O lamento das quedas d’água!

(Manuel Bandeira)

Classificação os poemas

Agora que temos noções estruturais de parte dos poemas que circulam na sociedade, é relevante frisarmos que, de acordo com os gêneros literários, os poemas podem ser:

  • Líricos: quando têm a intenção de exprimir emoções, ideias e impressões em face do mundo exterior. Nos poemas líricos, normalmente, os pronomes e os verbos estão na primeira pessoa e há o predomínio de uma linguagem subjetiva.

Exemplo:

Mentiras, Adriana Calcanhoto

Nada ficou no lugar
Eu quero quebrar essas xícaras
Eu vou enganar o diabo
Eu quero acordar sua família

Eu vou escrever no seu muro
E violentar o seu gosto.

[…]

  • Épicos: quando há centralização de figuras míticas, históricas e/ou fantásticas. Geralmente, estes poemas narram histórias de um povo ou uma nação, envolvendo aventuras, guerras, gestos heroicos. Estes poemas são denominados de epopeias. Os verbos e pronomes dessas epopeias estão quase sempre na terceira pessoa.

Exemplo:

Os Lusíadas, Luiz Vaz de Camões

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

[…]

  • Dramáticos: quando se tratam de poemas escritos para serem encenados.

Exemplo:

Gota d’água, Chico Buarque

Joana: Cê gosta da filha do Croente, Jasão?
Jasão: Não quero falar nisso agora…
Joana: Gosta não. Tá só perturbado, né? Responde pra mim…
Jasão: Tava falando, deixa eu continuar, sim?
Joana: Responde duma vez, homem, toma coragem. Você gosta mesmo da moça?

[…]

Poema x poesia

Para a assimilação total do gênero poema, é imprescindível entendermos o que é poesia, como ela se insere no poema e suas distinções.

Poesia é o sentimento expresso no poema. Ela pode ser definida como a forma literária da arte, moldada pela linguagem. Ela é a ideia expressa pelo eu lírico.

Dessa forma, a poesia tem a função de comover quem lê os poemas.

Já o poema é a forma de expressão, a estrutura que o eu lírico usa para transmitir a ideia desejada, ou seja, para transmitir a poesia.

Assim, pode-se afirmar que todo poema tem poesia, porém nem toda poesia precisa estar dentro de um poema.

Dicas para a construção de um poema

Bem, sabemos que grande parte dos poemas pedem uma estrutura prévia e necessitam transmitir uma ideia, ou seja, a poesia.

Considerando estes aspectos, segue abaixo dicas para construir bons poemas:

1- Tenha uma meta

Inicialmente, você precisa definir sua meta, seu objetivo. O poema se destinará a quem? A qual nicho você pretende direcionar seu poema?

Este deve ser seu foco principal no processo de início da escrita criativa.

2- Destaque o tema

Após ter decidido o seu nicho poético, frise uma ideia sobre este nicho.

Na segunda geração do Romantismo brasileiro, por exemplo, a atração pela morte era uma temática recorrente. A produção de Álvares de Azevedo expressou muito este gosto pela morte.

3- Seja original

Apesar de termos frisado os elementos estruturais e temáticos que podem compor um poema, é sempre recomendável que você use a imaginação.

Seja original. Procure fugir de repetições estilísticas.

4- Use figuras de linguagem

Vimos acima que algumas figuras de linguagem são essenciais para a formação de um poema. Elas enriquecem qualquer texto, proporcionando mais força argumentativa.

Assim, recursos como a metáfora, comparação, prosopopeia, sinestesia, aliteração, repetição e outras figuras de linguagem podem tornar o poema mais genuíno.

5- Fuja do óbvio

Você não precisa construir um poema pautado, exatamente, nos moldes frisados acima.

Inúmeros poemas modernistas e contemporâneos não se fixaram nas estruturas poéticas.

Paulo Leminski, por exemplo, escreveu inúmeros de seus poemas com coloquialidade e irreverência. Use a criatividade!

6- Autorrevise seu poema

O poema, assim como um texto em prosa, necessita de uma revisão. Leia e releia sua produção. Atente-se, principalmente, à presença ou ausência de sentido.

Se ainda estiver inseguro quanto à sua revisão, peça a um companheiro conhecedor de escrita criativa e/ou profissional da linguagem para revisar.

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